Comunidade Butantan lamenta o falecimento do professor Isaías Raw, pesquisador e ex-diretor do Instituto

Dedicou sua vida à pesquisa em bioquímica e à popularização do ensino de ciências para crianças e adolescentes. Como cientista, isolou uma das enzimas do ciclo de oxidação de ácidos graxos e concentrou suas atividades em áreas como o estudo da mitocôndria, a ação de drogas na indução de citocromos e a investigação de enzimas do metabolismo do Trypanosoma cruzi. Exilado durante a ditadura militar, escreveu o livro “From Molecule to Medicine-anemia”, entre outras publicações.

No Butantan, onde ingressou em 1984, foi responsável pela criação do Centro de Biotecnologia, do Museu de Microbiologia e do Museu Histórico, e idealizador da Fundação Butantan – entidade de apoio ao Instituto Butantan que contribui para a manutenção da produção de imunobiológicos da organização. Entre os grandes feitos de sua trajetória no Butantan, montou novas fábricas de produção de soro na década de 1980, ajudando a sanar uma crise nesse setor, trouxe inovações como a produção industrial em sistema fechado, liderou a modernização de plantas e o desenvolvimento de novas vacinas, como a da hepatite B recombinante. Além disso, foi um dos maestros da transferência de tecnologia da vacina da gripe entre Sanofi Pasteur e Butantan, até hoje o carro-chefe do instituto. 

Entre diversas premiações, foi reconhecido como Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico (1995) e recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2001), ambos da Presidência da República.

Isaías deixa filhos, netos e incontáveis alunos e admiradores no Butantan e na comunidade científica brasileira e internacional.


Saiba mais sobre Isaías Raw no depoimento do colega e amigo Paulo Lee Ho, gerente de desenvolvimento e inovação de produtos do Butantan

“Nasceu em 26 de março de 1927 um grande guerreiro. Destes que a gente não esquece, não mede e nunca vimos igual. Destes que dão muito trabalho, muitas ideias, muitas utopias. Destes que tinham uma aparência que lembravam personagens de desenho (Mr. Magoo para os mais antigos), que ríamos desta semelhança e à medida que tomávamos conhecimento dos seus feitos, parávamos de rir e ficávamos admirados pela quantidade de realizações em prol da sociedade.

Cresceu no Bom Retiro e muitas vezes estudava química no bondinho quando tinha a sorte de sentar ao lado de uma jovem química que soube mais tarde ser a professora Blanka Vladislau. A Praça da Luz foi o seu jardim, onde ia coletar os insetos que encontrava para compor o seu Museu de Bichos, doado posteriormente ao Colégio Anglo Latino. Muito curioso, já participava da universidade mesmo sem ser membro dela. Ia na Genética e conheceu André Dreyfus, que lhe emprestava os livros que queria, na condição que os devolvesse na semana seguinte. Viu a genética brasileira ser criada com a vinda de Theodosius Dobzanski (tinha apenas 16 anos!!!). Era educado pelos professores da Universidade de São Paulo (USP) que encontrava nos corredores da Alameda Glete, como o professor Edmundo Nonato, que lhe cedeu as lâminas histológicas que tinha.

Queria ser cientista desde o início e por isso escolheu o curso de medicina da USP. Ainda aluno, já era admirado pelos seus docentes pelos conhecimentos que tinha e ideias avançadas para a sua época. Muitas vezes não se contentava com o estabelecido, não concordava. Assim, criou o primeiro curso experimental de medicina, que formou cientistas (médicos) como Ricardo Brentani, Walter Colli e Franscisco Nóbrega, e que foi uma verdadeira revolução para a Casa de Arnaldo. Nas pesquisas científicas fez grandes contribuições, principalmente mostrando a função da mitocôndria quando ainda nem se sabia da existência desta organela!! Queria que todos fossem educados, bem educados. Assim, escreveu livros, editou revistas e escreveu artigos de divulgação na revista Cultus, que ele próprio criou. Trouxe a série azul de livros BSCS para inclusão no currículo básico baseado em ciências, por acreditar que o conhecimento fundamentado na ciência mudaria a sociedade para melhor.

Era daqueles preocupados com todos os problemas do mundo e do país. Pensava sempre no coletivo. Na educação, ciência e tecnologia como transformadores para uma sociedade soberana. Assim, criou o IBECC (Instituto Brasileiro de Ciência e Cultura) e a FUNBEC (Fundação Brasileira para o Ensino de Ciências), onde se podia comprar vidrarias e reagentes para o ensino de ciências nas escolas. Os kits “Os Cientistas” eram vendidos nas bancas de jornais e estimularam precocemente nos jovens o interesse pela ciência e suas descobertas. Criou a Fundação Carlos Chagas, o sistema vestibular (CESCEM) por onde os alunos ingressavam na universidade pelo seu mérito e não por indicação, e que deu origem à FUVEST. Participou da formação do Departamento de Bioquímica do IQUSP. Foi cassado pela ditadura militar sem motivo político, se exilou e voltou ao País no início de 1980.

Difícil escrever um pequeno parágrafo de um homem de tantas realizações. Voltando minha memória para os tempos do Instituto Butantan, lembro que montou uma lojinha (como costumávamos dizer, ao relembrar a sua origem judaica), o SARDI, que permitiu a sobrevivência da ciência brasileira em momentos difíceis, permitindo o acesso dos pesquisadores a reagentes e pequenos equipamentos. Montou novas fábricas de produção de soro inicialmente na década de 1980, quando tivemos uma crise no país pela sua falta e também pela falta de eficácia e segurança do pouco que era produzido à época. A fábrica do instituto foi a primeira no mundo a ter um conceito de produção industrial em sistema fechado, usando tecnologias baseadas na indústria de alimentos. Foi um modelo de tanto sucesso que o Butantan se tornou referência, fomentando cursos anuais que eram patrocinados pela JICA. Ajudou a criar o Plano de Autossuficiência em Imunobiológicos, um plano de Estado, por entender que soros e vacinas eram estratégicos para a soberania de um País. A modernização iniciou-se com a planta de produção dos antígenos de pertussis, tétano e difteria, todos com conceito de sistema fechado. Trouxe pesquisadores russos para o desenvolvimento local da vacina de hepatite B recombinante no Instituto Butantan. Firmou o primeiro acordo de transferência de tecnologia com a Sanofi Pasteur para trazer a vacina da influenza sazonal e também para segurança do País no caso de um surto pandêmico de gripe. Este foi um primeiro caso de sucesso de uma tech transfer que serviu de modelo para todos os outros que se seguiram. Fundou a Fundação Butantan, que permitiu a liberdade administrativa e financeira para as atividades do Instituto Butantan. Criou o Centro de Biotecnologia, o Museu de Microbiologia, o Museu Histórico e muitas outras iniciativas inovadoras no Butantan.

O professor Isaías, de aparência sisuda, era um homem formidável, de um acolhimento (quantos foram acolhidos por ele!!!!) ímpar. Gritava, é verdade, principalmente quando algo ameaçava a soberania do País, mas era capaz de uma ternura e um cuidado infinito para com os seus colaboradores. Me lembro dele indo visitar um aluno seu no HC vestindo um jaleco e com livros na mão para adentrar na enfermaria sem ser interpelado, somente para ver os cuidados do seu aluno internado que tinha se acidentado. O aluno ficou tão surpreso com a visita que melhorou de imediato!!! Sabia ouvir quando havia uma nova ideia a ser discutida. Defendia a saúde pública como um dever do Estado, que deveria ser acessível para a população e que o instituto tem um papel social importante nestas ações. Defendia que a medicina deveria servir à sociedade e não ao lucro. Infelizmente, o professor Isaías Raw faleceu. Mas felizmente as suas realizações são eternas. Gratidão e admiração…”

 

 

 

Verificado – Ver na fonte

Scroll to Top