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Como o Brasil pode combater 'greenwashing político' e ser 'ator-chave' na preservação ambiental?

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O Brasil e outros países em desenvolvimento são constantemente cobrados pelos Estados Unidos e por países da União Europeia para acelerar a transição verde.
Mesmo com um histórico de emissão de poluentes muito maior que o das nações em desenvolvimento, o bloco ocidental promove cobranças públicas e ameaça outros Estados com barreiras econômicas a partir de argumentos ambientais, fenômeno chamado de “greenwashing político“. O termo inglês, que significa “lavagem (ou maquiagem) verde”, seria a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas em prol de interesses políticos.
De acordo com dados do Global Carbon Project — organização que busca quantificar as emissões globais de gases de efeito estufa e suas causas —, 23 países desenvolvidos, com 12% da população global, são responsáveis por metade de todas as emissões de dióxido de carbono (CO2) desde 1850.
Apenas os EUA emitiram 24,6% de todo o carbono que chegou à atmosfera ao longo desse tempo. Em seguida aparecem a Alemanha (5,5%), o Reino Unido (4,4%) e o Japão (3,9%).
Em 2021, segundo o relatório, a China foi o país que mais emitiu gases poluentes, com 10,7 gigatoneladas (Gt) de CO2, seguida pelos EUA, com 4,7 Gt. Nessa lista, o Brasil é o 12º colocado, tendo emitido 0,5 Gt do gás. O cálculo do instituto leva em conta emissões por combustíveis fósseis e indústria do cimento, desconsiderando o uso do solo e o desmatamento.
Após diversas promessas de redução das emissões ao longo dos últimos anos, com as sanções ocidentais contra combustíveis russos, muitos países europeus reativaram usinas termelétricas a carvão, um dos maiores responsáveis pelo aquecimento global.

CC BY 2.0 / Flickr.com / Hauke Musicaloris / Usina termelétrica a carvão (imagem referencial)

Usina termelétrica a carvão (imagem referencial). Foto de arquivo
Em outro exemplo, reportagem da Sputnik Brasil revelou que empresas estrangeiras exportam lixo residencial imprestável de maneira clandestina para o Brasil. Em setembro, a Receita Federal brasileira interceptou um contêiner contendo lixo traficado diretamente dos Estados Unidos.

“Evidentemente os que poluem mais precisam mudar mais as suas políticas ambientais. Destaco os casos dos EUA, do bloco europeu e da China, que, em razão do seu alto índice de desenvolvimento industrial, lideram o ranking dos poluidores e precisam aprofundar ainda mais as suas alternativas para preservar o ambiente sem comprometer a produção”, afirmou à Sputnik Brasil o professor de relações internacionais Christopher Mendonça, do Ibmec Belo Horizonte.

Contudo, o especialista avalia que a preservação do meio ambiente “precisa do envolvimento e do comprometimento de todos os países“, incluindo os menos poluidores, que, segundo ele, “podem contribuir com sugestões para melhorar a condição global”.
Bruno Lima Rocha, cientista político e professor de relações internacionais, aponta que a redução da emissão de gases do aquecimento global “é uma necessidade” atualmente.
No entanto ele ressalva que “a assimetria nas relações de poder do sistema internacional também se dá na política ambiental”.
Ele lembra que o desenvolvimento econômico capitalista de países europeus se deu em condições que hoje seriam classificadas de “antiecológicas”. Apesar disso, “todo o receituário neoliberal pregado ou quase imposto é o oposto do que os países ricos fizeram” no passado, analisa.
“Mas tem um porém com o real aquecimento global: é algo semelhante ao destino coletivo”, afirma Rocha Lima, ao comentar a importância de os países perceberem a gravidade da atual situação.
Usinas de energia nuclear Angra 1 e Angra 2, na praia de Itaorna, no município de Angra dos Reis, no sul do estado do Rio de Janeiro. O complexo nuclear da região vai crescer com a conclusão da usina de Angra 3 - Sputnik Brasil, 1920, 02.11.2022

Notícias do Brasil

Energia nuclear convenceu ambientalistas e é porta para o futuro no Brasil, avalia pesquisador

De acordo com o cientista político, nas regras do jogo internacional, o que há são políticas de compensação, como as de emergência climática em países menos desenvolvidos. Porém ele diz que “é impossível para países que passam por necessidades materiais concretas fazer políticas de reconversão energética sem fundos para isso”.

“Uma possibilidade seria um fundo em escala mundial para produção de alimentos saudáveis que não implicassem derivados de petróleo, como é a cadeia do agro, com insumos, fertilizantes etc.”, indicou.

Brasil deve liderar bandeira verde mundial?

Em discurso na COP27, a cúpula do clima da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fez cobranças quanto a promessas de países ricos de preservação ambiental e climática.
Ele lembrou que na COP15, realizada em 2009, muitos países se comprometeram a mobilizar US$ 100 bilhões (R$ 539 bilhões) por ano a partir de 2020 para ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentarem as mudanças climáticas. Lula afirmou que está voltando à presidência “para cobrar” a promessa feita há mais de uma década.
O presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fala na COP27, a cúpula do clima das Nações Unidas, em 16 de novembro de 2022, em Sharm el-Sheikh, no Egito - Sputnik Brasil, 1920, 18.11.2022

Notícias do Brasil

‘Reconstruir pontes queimadas’: agenda ambiental de Lula exige reconciliação com agro e Venezuela

Além de pedir representação de países emergentes na ONU e de cobrar Estados ricos sobre compromissos firmados, Lula prometeu um governo de integração regional e coordenação global para proteger a Amazônia e permitir a garantia da preservação ambiental e climática em seu futuro governo, que se inicia em 1º de janeiro de 2023.
“Não há segurança climática para o mundo sem Amazônia protegida”, declarou.
Além disso, conforme esperado, Lula anunciou a candidatura do Brasil para sediar a COP30, em 2025. O presidente eleito confirmou que o país deseja realizar o evento especificamente na Amazônia e propôs uma cúpula regional entre Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Peru, Guiana e Suriname, para “produzir de forma soberana a integração da região com responsabilidade climática”.
Para Bruno Lima Rocha, o discurso de Lula “foi muito acertado”. Segundo ele, a preservação das florestas globais, não só na Amazônia, mas na Indonésia, na Malásia e em outras regiões, “é uma necessidade”.

“É preciso transformar a preservação dos biomas em produção científica. Não é possível que na Amazônia brasileira a maior presença de ciência aplicada seja de pesquisa japonesa. Isso é absurdo. Podemos ter grande aprendizado a partir da preservação das florestas e dessa aliança com povos originários”, indica o analista.

Rocha Lima diz que o país tem expertise no estudo de recuperação de solo e de terras já atingidas pela destruição de biomas. Ele pede, no entanto, que as novas regras de preservação mundial respeitem o “princípio da reciprocidade” e a soberania dos países.

“Precisamos em escala global assumir a emergência climática com políticas perenes, que ultrapassem mesmo as trocas de governo, de comando. Precisamos de um amplo apoio da sociedade civil para isso, pois essa agenda imposta sem reciprocidade soa como uma intromissão imperial. Apesar da hipocrisia do Ocidente, da assimetria de poder, é um tema importante, em que só vamos avançar com o protagonismo das relações Sul–Sul e com o princípio da reciprocidade plenamente aplicado”, afirma.

Queimada em área desmatada no município de Humaitá, no sul do Amazonas, em 20 de agosto de 2020 - Sputnik Brasil, 1920, 06.09.2022

Eleições 2022

‘Degradação ambiental só gera mais pobreza’: quais os desafios do próximo governo no Meio Ambiente?

Segundo Christopher Mendonça, do Ibmec, o Brasil é um país “importante na construção de regimes de proteção” ao meio ambiente. Além de ser um país com ampla biodiversidade, tem relevância e expertise na convivência com outros Estados, avalia.

“O Brasil foi um dos membros fundadores da ONU, é signatário de diversos acordos de integração regional, mantém bom diálogo com todos os países do mundo, não tem tradição conflituosa. A posição brasileira é muito privilegiada no campo internacional, e por essas razões somos um ator-chave no fomento de um sistema de preservação ambiental. Para tal, será necessário muito diálogo, o que já tem sido feito e precisa ser aprofundado”, disse o especialista.

De acordo com o professor, o Acordo de Paris imaginava um mundo diferente do que existe atualmente. Para ele, agora as metas precisam ser adaptadas à realidade, construindo novos cenários factíveis de se alcançar.

“As dificuldades observadas na COP27 do Egito se ancoram na necessidade de novas metas de emissão de gás de efeito estufa em um momento no qual as metas passadas ainda não foram cumpridas. Não há ganho real em se estabelecer condições irreais. Os países precisam se dar conta da situação que estamos vivendo e construir alternativas possíveis que levem em consideração os diferentes estágios dos países. Alcançar os objetivos traçados para 2030 será difícil”, acredita.

Segundo ele, o mundo não esperava a situação econômica desta década, e, por isso, “a esperança está na adaptação”. “Adaptar os objetivos e práticas às demandas ambientais é o caminho mais adequado a ser seguido neste momento”, diz Mendonça.
Mundioka #130 - Sputnik Brasil, 1920, 11.11.2022

Mundioka

Meio ambiente em pauta: a lei antidesmatamento no continente europeu



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