Opinião

Os países latino-americanos não são mais o quintal dos Estados Unidos

Países da América Latina não são mais o quintal dos EUA GeopolíticaAmérica Latina 21/04/2016BrasilBoris Martynov

Boris Martynov: Parece-me que os países latino-americanos deixaram de ser o quintal dos Estados Unidos há muito tempo.

– O que eles se tornaram?

Boris Martynov: São Estados soberanos absolutamente independentes que perseguem seus interesses na arena internacional. Nesse sentido, o interesse do Brasil pelos BRICS é constante. E mesmo que os americanos esperem restabelecer a ordem lá, retirar o governo, o PT – muito provavelmente, provavelmente vai embora, você precisa estar preparado para isso, este é um evento completamente esperado – ninguém pode imaginar que o Brasil voltará para as mãos dos Estados Unidos. Ela saiu de lá há muito tempo, não vai voltar, esta é a sétima economia do mundo com interesses próprios. Quero lembrar que a ideia do BRICS nasceu nas profundezas do PSDB, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando começaram a falar da necessidade de cooperação entre os países gigantes.

Nesse sentido, parece-me que a política externa do Brasil pode sofrer alguma aberração, perder sua atividade anterior, pois os problemas internos ocuparão grande parte de seu programa político. Mas o Brasil, de qualquer forma, não vai abandonar o BRICS, essa é a sua passagem para a grande política global, de forma alguma vai sair do G20 e passar para os Estados Unidos. O Brasil nunca terá uma política servil.

– Vamos relembrar a Doutrina Monroe. Esta é uma mensagem ao Congresso do presidente dos EUA, James Monroe, em 2 de dezembro de 1823, três disposições principais que foram apresentadas como princípios da política externa dos EUA: não interferência dos Estados americanos nos assuntos internos da Europa, não interferência dos Estados europeus nos os assuntos internos da América, a determinação de impedir todas as tentativas dos estados europeus de invadir a independência dos estados americanos por meio de sua colonização. Como você pode comentar tudo isso?

Boris Martynov: Pode haver muitos comentários sobre isso. O fato é que os países latino-americanos não assinaram nenhum documento oficial onde se comprometessem a seguir as disposições da Doutrina Monroe, embora houvesse uma opção – 1910, a IV Conferência Pan-Americana de Buenos Aires, e aliás, O Brasil liderou aqueles que coletivamente rejeitaram essa mensagem dos EUA.

Os países latino-americanos ao longo da história do século 20 mostraram exemplos vívidos de defesa de sua soberania. Mesmo em 1947, quando parecia que o Tratado Interamericano de Assistência Mútua, precursor da OTAN, foi adotado, por mais que os americanos tentassem, eles não conseguiram criar uma única força armada comum no âmbito do Tratado Interamericano sob seus auspícios.

– Acontece que eles ainda defendem com sucesso sua identidade, separada da norte-americana. Como podemos trabalhar com eles? O que a Rússia deve fazer com esse aliado na luta contra o hegemon, contra o mundo unipolar?

Boris Martynov: Precisamos aprender a entender os latino-americanos, aceitá-los como são e apreciar a contribuição que podem dar ao desenvolvimento da ideia de um mundo multipolar. Praticamente todos os países latino-americanos são a favor da criação de um mundo multipolar e multicivilizacional no qual a civilização latino-americana ocuparia seu lugar designado. Nesse sentido, uma das áreas de nossa cooperação não será tanto econômica, embora isso seja muito importante, mas ainda política, dada a instabilidade que existe hoje no mundo, visto que a atitude em relação ao direito internacional das grandes potências – principalmente os Estados Unidos – deixa muito a desejar, e a atitude em relação ao direito internacional dos países latino-americanos, ao contrário, sempre foi enfaticamente respeitosa. E nesse sentido, eles são nossos aliados naturais.

Estamos prestando atenção suficiente aos nossos aliados naturais agora?

Boris Martynov: Eu gostaria de pagar um pouco mais. Provavelmente há progresso, mas dificilmente estamos descobrindo esses novos espaços por nós mesmos.

– Muito longe. É como uma espécie de estados bálticos ou Polônia para os americanos. Para nós, eles estão perto, mas para eles – algo próprio, um aliado, mas distante. E parece-nos que isso está muito longe, mas o Brasil está muito perto de nós. Mesmo se você estudar suas obras, pode chegar à conclusão de que esta é uma Rússia latino-americana, um enorme território, um enorme potencial, recursos, água …

Boris Martynov: Fernando Enrique Cardoso chamou o Brasil de “Rússia tropical”. De fato, estamos em primeiro e segundo lugar em termos de reservas de água doce. Somos os dois únicos países, talvez, autossuficientes em termos de recursos naturais, estamos muito próximos em todos os indicadores de desenvolvimento econômico, somos muito próximos em caráter, emocionalmente, temos o mesmo humor, temos muito em comum .

A China também está longe da América Latina, mas sua política latino-americana é muito mais ativa que a nossa nessa direção. Graças a Deus, pelo menos levantamos a América Latina do último lugar em nosso Conceito de Política Externa de 2013. Agora ela está na penúltima, depois da África.

– Quais das nossas iniciativas e projetos mais recentes podem ser classificados como positivos nesta área?

Boris Martynov: Econômico, político, militar… Temos novas iniciativas em todas as áreas: a construção de uma usina nuclear na Argentina, a continuação da cooperação na construção de uma usina hidrelétrica, estamos muito interessados ​​em vender armas modernas para a América Latina, eles também estão interessados ​​nisso, pois estão começando a cuidar mais da sua segurança.

– Boris Fedorovich, obrigado. Só uma coisa pode ser acrescentada: a América Latina é nossa (não importa o que digam) uma direção muito importante. Espere latinos, estamos chegando. Os russos estão chegando!

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