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Economista: EUA criam 'massa financeira impagável' por privilégio de gastar sem ter que produzir


A lenta recuperação global após a pandemia de COVID-19 e a nova configuração geopolítica devido ao conflito na Ucrânia têm elevado as preocupações no Ocidente com relação à economia dos Estados Unidos.
Isso porque Washington não tem demonstrado o mesmo fôlego de décadas passadas para ajudar a reativar a economia mundial, principalmente a de países dependentes do sucesso norte-americano.
Após queda de 3,5% em 2020 e a alta de 5,7% em 2021, o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA acumula dois recuos trimestrais consecutivos neste ano, de 1,6% (de janeiro a março) e de 0,9% (de abril a junho), aumentando o risco de recessão no país.
Em outra ponta, a dívida pública norte-americana segue com viés de alta. Segundo dados do Departamento do Tesouro, a dívida total do país é de US$ 30,9 trilhões (R$ 158,50 trilhões) e caminha para atingir US$ 31 trilhões (R$ 159 trilhões) ainda no mês de setembro.
Com um PIB em valores absolutos estimado na casa dos US$ 24 trilhões (R$ 123 trilhões) em 2022, a relação dívida/PIB do país tem girado em torno de 130% desde meados de 2020.
E a tendência, ao menos por enquanto, é que a dívida norte-americana continue subindo, já que, para tentar conter a escalada na inflação, o Federal Reserve (Fed), o banco central do país, aumentou as taxas de juros em 0,75% na última quarta-feira (21). Com o reajuste, o intervalo passa de 2,25% a 2,5% para 3% a 3,25%.

© AP Photo / Manuel Balce CenetaPresidente do Federal Reserve, Jerome Powell, discursa em coletiva de imprensa

Presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, discursa em coletiva de imprensa. Foto de arquivo
Diante desse cenário negativo para os EUA, economistas consultados pela Sputnik Brasil avaliam que o trunfo que sustenta a economia norte-americana continua sendo o dólar. Embora venha perdendo força, a moeda ainda é o principal meio de troca em transações internacionais, mantendo a relevância dos títulos da dívida pública norte-americana.
Segundo o economista Fábio Sobral, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), os EUA “negligenciam o aumento da dívida” porque sabem que ainda possuem o controle do alto endividamento, por conta de um sistema que lhe dá privilégios.
O especialista explica que o dólar funciona como um “mecanismo de financiamento“, desde 1961, quando a moeda deixou de ser lastreada em ouro. Assim, segundo ele, Washington consegue imprimir dólares sem grandes preocupações de gerar inflação.

“Os EUA quebraram a obrigatoriedade de trocar o dólar por ouro, então, a dívida americana pode crescer sem esse controle. Já as dívidas de outros países são reguladas a partir desse mecanismo financeiro dos EUA”, afirmou.

O economista aponta que os EUA “têm o privilegio de deter a emissão da moeda” que serve como base para transações entre todos os países, mas alerta que novos polos econômicos, liderados por China e Rússia, ameaçam quebrar essa cadeia hegemônica.

“Há um movimento que busca a desdolarização. Isso complicará muito a vida do endividamento eterno e ilimitado dos EUA. O endividamento é um mecanismo de profundo descontrole e instabilidade econômica do próprio capitalismo. Esses países [China e Rússia] tentam se livrar da instabilidade provocada pelo crescimento da massa financeira impagável, que os EUA criam permanentemente para ter o privilégio exclusivo de comprar e gastar sem ter que produzir”, avaliou Sobral.

Dólar dos EUA (imagem referencial) - Sputnik Brasil, 1920, 22.09.2022

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Efeitos do aumento da taxa de juros pelo Fed no mundo

Em um cenário de curto e médio prazo, a economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Carla Beni não vê risco de crédito global com o aumento da dívida norte-americana.
“As finanças americanas não estão fora de controle, porque é uma dívida que está sendo gerenciada, aprovada pelo Congresso”, diz a especialista.
Ela aponta que, quando os EUA sobem a taxa de juros, provocam um “impacto muito grande para o resto do mundo“, mas não internamente.

“Se o título soberano americano, que é considerado o papel de menor risco no cenário internacional, remunera um valor maior, passa a haver pressão sobre a taxa de juros de países emergentes. O impacto no resto do mundo sempre é muito relacionado à elevação da taxa de juros do Fed”, afirmou.

© AP Photo / Saul LoebPresidente dos EUA, Joe Biden, faz discurso de Estado da União no Congresso, com presença da vice-presidente, Kamala Harris, e da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, em 1º de março de 2022

Presidente dos EUA, Joe Biden, faz discurso de Estado da União no Congresso, com presença da vice-presidente, Kamala Harris, e da presidente da câmara, Nancy Pelosi, 1º de março de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 22.09.2022

Presidente dos EUA, Joe Biden, faz discurso de Estado da União no Congresso, com presença da vice-presidente, Kamala Harris, e da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, em 1º de março de 2022. Foto de arquivo
Em dezembro do ano passado, o Congresso norte-americano aprovou a elevação do teto da dívida do governo federal de US$ 28,9 trilhões (R$ 147,8 trilhões) para US$ 31,4 trilhões (R$ 160,6 trilhões).
A economista da FGV destaca que, recorrentemente, o Congresso norte-americano se reúne para aprovar o aumento do limite da dívida, independentemente do partido à frente do governo federal.
“Há que se considerar que a economia dos EUA está há décadas em um processo de guerra, que custa muito caro. Então, quanto mais guerra, maior é a despesa. Por isso, a previsão orçamentária pode vir a ser alterada ao longo do ano justamente por essas questões”, explicou.
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Critérios para dívidas dos outros países ‘não valem para os EUA’

O economista Fábio Sobral, da UFC, aponta que o dólar e os títulos do Tesouro são os dois “papéis” que norteiam a economia do país.
Segundo ele, devido a essa força da moeda — cada vez mais questionada internacionalmente —, os EUA ainda têm certo privilégio em termos de capacidade para injetar dinheiro na economia.

“Para não inundar o mercado de dólares, os EUA podem imprimir títulos públicos e trocar por dólares, papel por papel. O dólar acaba funcionando como título público”, indica o especialista.

Sobral explica que os EUA contam com alguns mecanismos para evitar que o dólar seja desvalorizado em grande quantidade velozmente, tais como “a elevação da taxa de juros e a interferência do BC norte-americano junto a grandes bancos centrais”.
Com isso, destaca o especialista, os EUA conseguem manter outros países dependentes de suas orientações, sabendo que uma paralisação da máquina estatal norte-americana por conta do crescimento da dívida só ocorrerá mediante uma crise que afete a todos.

“Por isso, os critérios técnicos, econômicos e políticos para as dívidas dos outros países não valem para os EUA”, afirmou.

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