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TUSP – Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação

Cia. Livre estreia espetáculo teatral sobre transgêneros inspirado em Montaigne.

Público escolhe papel dos atores.

          Depois do ciclo Leituras Transvestidas, em que a Cia. Livre – de Cibele Forjaz, Edgar Castro e Lúcia Romano – trouxe à tona textos da dramaturgia universal sobre mudanças de identidade, o grupo traz ao Teatro da USP a sua nova criação, Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação. O espetáculo será apresentado no TUSP de 26 de março a 19 de abril, de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 19h, em 16 apresentações.

          A Cia. Livre estreia a décima peça de sua carreira de 15 anos. A trama parte de história clássica sobre mudança de sexo citada por Montaigne no Ensaio XXI, “Da Força da Imaginação”.  O grupo de Cibele Forjaz, Lúcia Romano e Edgar Castro é um dos 22 que recebeu certificado de patrimônio imaterial da cidade de São Paulo. O projeto começou em 2014 e foi contemplado pela 24ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

          Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação tem direção de Cibele Forjaz e no elenco Lúcia Romano e Edgar Castro. A peça conta ainda com a cenografia de Márcio Medina, figurinos de Fabio Namatame, vídeo de Lucas Brandão, músicas de Lincoln Antonio, luz de Cibele Forjaz e Rafael Souza Lopes, sonoplastia de Pepê Mata Machado e treinamento vocal para canto de Ná Ozzetti.

          Escrito especialmente para a Cia. Livre por Cássio Pires, o texto enfoca o tema das identidades móveis, novas configurações para a questão do gênero e os intersexos. A pesquisa de um ano que resultou na peça culmina com a apresentação deste espetáculo inédito, contemplado pela 24ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. “Dessa vez, deslocamos nosso olhar etnográfico para o ambiente urbano”, fala Lúcia Romano, citando o título do projeto de Fomento, Do Mato ao Asfalto.

          O mote do espetáculo nasceu da história da Marie que vira Germain, apresentada pelo filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592) no provocador ensaio Da Força da Imaginação, o Ensaio XXI, de 10 páginasO historiador e sexólogo Thomas Laqueur (1945) reconta a fábula no livro Inventando o Sexo, no qual discute que o que entendemos como sexo, as chamadas verdades biológicas na realidade são construções culturais. O relato ganhou tradução cênica na adaptação da Cia. Livre, que recria o caso de Marie-Germain – habitante de Vitry, na França do século XVI, que, nascido Marie, muda de sexo e é aceito socialmente como homem – destacando dali o tema da transformação do corpo. Assim, a trama parte desse relato supostamente real para discutir a especificidade histórica das crenças e leis e questionar os limites entre representação, fantasia, teatralidade, aparência e verdade.

          No palco, as personagens são dois atores transexuais – Neo Maria (Lúcia Romano) e Jonas Couto (Edgar Castro) – que estão montando a peça A Força da Imaginação. Trata-se de um jogo de metateatro, uma peça dentro da peça. Questionando o que se entende por identidade, na encenação de Cibele Forjaz o público escolhe qual papel (Ele ou Ela) os atores da peça – interpretados por Lúcia Romano e Edgar Castro – vão viver a cada sessão. Depende da escolha da plateia, que ao chegar, recebe duas senhas – XX ou XY.

          “A peça de Cássio Pires apresenta um jogo de transformação muito claro, mesmo abordando o problema complexo das identidades. Ao lado dela e dialogando com a narrativa, criamos cenas de camarim que levantam questões contemporâneas sobre a experiência de homens e mulheres em torno do gênero e sexo”, explica Edgar Castro.

          Lúcia Romano destaca que “a Cia. Livre parte do entendimento de que não existe alinhamento entre gênero, identidade, opção sexual e comportamento sexual. Esse alinhamento não deveria ser tomado como natural.” Cibele Forjaz completa: “Eu posso ser uma mulher que escolhe ser ou viver como homem e que namora uma mulher. Ou um homem. E essa é uma mudança social e cultural que precisa ser tratada pelo teatro, onde a questão da representação é central”.

Sobre o processo

      Como suporte para a criação do espetáculo Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação, a Cia. Livre leu textos da história do teatro que tratam de travestismos e de personagens que trocam de sexo; conversou com dramaturgos contemporâneos que trouxeram propostas de enredos e roteiros, além de mergulhar em extensa pesquisa de campo e de fontes publicadas na internet, tais como os selfies de mudança de sexo, relatos e registros cirúrgicos que passaram a povoar o imaginário do grupo. Também foram fundamentais as leituras de Beatriz Preciado, Judith Butler, Jorge Leite Jr., Luciana Villas Boas, Patricia Porchat, Antonio da Costa Ciampa, Ronaldo Pamplona da Costa, Thamy Claude Ayouch e Maria Filomena Gregori, entre outros pensadores que refletem sobre o movimento queer, hierarquias de gênero e políticas de identidade.

Hermafroditismo no século XVI

          Germain Garnier nasceu Marie, numa vilazinha francesa. Viveu como mulher até o dia em que, correndo num campo de trigo, saltou sobre uma vala e, com o esforço do movimento e a abertura exagerada das pernas, viu despregar-se de seu interior o membro masculino, rompendo os ligamentos que o prendiam dentro de seu ventre. Marie foi conduzida a cirurgiões e médicos diversos, depois a um bispo, que convocou uma assembleia e confirmou que a transformação ocorrera, de fato.

          Marie foi rebatizada Germain e passou a viver como homem, indo servir na corte do rei Carlos IX como servente. Ali, travou conhecimento com o cirurgião Ambroise Paré, que se admirou com seu corpo benfeito, a barba vermelha e cerrada e sua história pregressa, e a narrou para a posteridade.

          Para os integrantes da Cia. Livre, “o emprego de um texto filosófico como disparador da montagem oferece para o teatro outras textualidades, diversas do modelo tradicional dramático, tais como a narrativa épica e a voz lírica. Cássio Pires, em parceria com a Cia. Livre, torna esta versão da história de Marie-Germain polifônica, posicionando a disputa de pontos de vista como gênese da discussão e ressaltando ora suas tintas cômicas, ora as trágicas, sempre combinando o prosaico e o poético, o ridículo e o grandioso”.

15 anos e 10 peças

          A Cia. Livre formou-se em 2000, com os espetáculos Toda Nudez Será Castigada e Os 7 Gatinhos, de Nelson Rodrigues. Trabalha com temas ligados à brasilidade e à formação cultural brasileira desde 2004, quando ocupou o Teatro de Arena de São Paulo, com os projetos Arena Conta Arena 50 Anos Arena Conta Danton (Prêmio Mambembe/2004 e Prêmio Shell Especial/2004).

          Em 2006, com o projeto de pesquisa Mitos de Morte e Renascimento: Povos Ameríndios montou os espetáculos Vem Vai – O Caminho dos Mortos (2007/2009), com dramaturgia de Newton Moreno (Prêmio Shell de direção e atriz); eRaptada Pelo Raio (2009/2010), com dramaturgia de Pedro Cesarino. Estreou em 2012 A Travessia da Calunga Grande,com dramaturgia de Gabriela Amaral Almeida em parceria com a Cia. Livre e direção de Cibele Forjaz.

          No inicio de 2014, a Cia. Livre revisitou os mitos dos povos ameríndios em versão atualizada do mito marubo, que conta sobre um homem inconformado com a perda da mulher, raptada por um raio – na peça Cia. Livre canta Kaná Kawã. A montagem teve dramaturgia de Pedro Cesarino e direção de Cibele Forjaz. O grupo é um dos 22 coletivos paulistanos que recebeu certificado de patrimônio imaterial da cidade de São Paulo, em dezembro de 2014.

 

Ficha Técnica

Dramaturgia | Cássio Pires Direção | Cibele Forjaz Atores-criadores | Edgar Castro e Lúcia Romano Direção de Movimento | Lu Favoreto Cenografia | Márcio Medina Figurinos | Fabio Namatame Luz | Cibele Forjaz e Rafael Souza Lopes Direção Musical | Lincoln Antonio Sonoplastia | Pepê Mata Machado Treinamento Vocal para Canto | Ná Ozzetti Produção | Cia. Livre e Centro de Empreendimentos Artísticos Barca

 

Serviço

Maria que Virou Jonas ou A Força da Imaginação

De 26 de março a 19 de abril de 2015

Quinta a Sábado, 21h | e Domingo, 19h

Duração | 1h45 min. | Indicação de faixa etária | Não recomendado para menores de 16 anos.

Onde | Teatro da USP | Rua Maria Antônia, 294, Consolação – São Paulo, SP – 01222-010

Tel. 11 3123-5233 | Site www.usp.br/tusp | Facebook www.facebook.com/teatrodauspoficial

Twitter www.twitter.com/tusp_online

Metrô Santa Cecília

Capacidade – 98 lugares

Preços – R$ 20,00 (Inteira) e R$ 10,00 (Meia)*

 

A aquisição dos ingressos para espetáculos em cartaz no TUSP pode ser feita duas horas antes do início do espetáculo. As formas de pagamento aceitas são dinheiro e cheque.

    

*Meia-entrada: Para estudantes mediante apresentação de carteirinha ou comprovante de matrícula válido para o ano vigente; para maiores de 60 anos; professores e funcionários da USP mediante apresentação de carteirinha ou hollerith; professores da rede pública estadual e municipal mediante apresentação de hollerith ou carteira funcional emitida pelas respectivas Secretarias de Educação.

Estacionamento – O estacionamento Mariauto, no número 176, tem parceria com o teatro e o público tem desconto mediante apresentação de carimbo (do TUSP) no comprovante de entrada.

 

Elcio Silva

Assessor de Imprensa – Teatro da USP

R. Maria Antônia, 294 – Consolação

t. 3123.5241

site: www.usp.br/tusp

facebook: www.facebook.com/teatrodauspoficial

twitter: www.twitter.com/tusp_online

 

Assessoria de Imprensa

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