Vacinação contra Covid-19 é a melhor estratégia para evitar mortes e Covid longa em crianças, dizem médicos

Tal afirmação parte da análise de estudos sobre os efeitos da imunização e das sequelas pós-covid em crianças, explica Fernanda. Um deles foi publicado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Amazonas em julho deste ano. O estudo mostra um aumento no total de mortes de crianças por Covid-19 em dezembro de 2022 no país, principalmente entre as menores de cinco anos, até então sem acesso à vacinação contra o coronavírus. 

 

Pelo menos uma criança entre 6 meses e 5 anos morre por dia de Covid-19 no Brasil, dado refletido nas 314 mortes notificadas nesta faixa etária entre os dias 1/1/22 e 11/12/22, segundo levantamento do Observa Infância, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso da CoronaVac, vacina contra Covid-19 do Butantan e da Sinovac, para crianças a partir dos 3 anos em 13/7. Antes disso, apenas crianças com 5 anos ou mais estavam elegíveis para receber as duas doses. E, mesmo assim, a adesão à vacinação deste público se mantém abaixo do esperado.

Vacina pode reduzir sintomas

Segundo os pesquisadores, foram observados padrões opostos na mortalidade por Covid-19 no Brasil entre crianças vacinadas e não vacinadas ou com o esquema vacinal incompleto. Os cientistas também perceberam que o impacto da mortalidade por Covid em crianças continuava aumentando no Brasil, principalmente entre as não vacinadas.

“Há evidências científicas que mostram que a vacinação pode prevenir sintomas graves e impedir que eles perdurem, o que poderia ter impacto nos casos de covid longa”, explica a gestora do Butantan.

Dados de uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais feita em conjunto com a Fiocruz Minas confirmaram a eficácia da vacinação na redução da infecção pelo SARS-CoV-2 e do risco de Covid longa. O estudo avaliou a resposta de anticorpos em indivíduos vacinados e não vacinados que testaram positivo para Covid-19. Dos 1.587 participantes, 247 (15,6%) haviam testado positivo para Covid-19 e desse montante, 136 (8,6%) foram diagnosticados com Covid longa. Contudo, após a vacinação, somente 75 (4,7% testaram positivo, dentre os quais apenas cinco desenvolveram Covid longa.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Covid longa ou condição pós-Covid-19 tem como definição sintomas persistentes ou transitórios após a infecção pelo SARS-CoV-2 por pelo menos dois meses, e que não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo. Já se sugere que alguns sintomas podem durar pelo menos um ano.

 

 

Bebês também têm Covid longa

Opinião semelhante tem o pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria. Segundo ele, ainda não se sabe quais crianças estariam mais suscetíveis à Covid longa, mas já se compreende que a vacinação diminui o risco de morte e das sequelas em adultos e que a lógica se aplica também nas demais faixas etárias.

“Nós ainda não conseguimos estabelecer quais são os grupos de risco para Covid longa em crianças. Se são meninos, meninas, quem têm doença crônica, quais idades seriam mais suscetíveis. Mas sabemos que a vacinação diminui o risco de Covid longa porque diminui os sintomas. Menor chance de desenvolver a doença, causa menor chance de complicações e de sintomas prolongados”, afirma ele. 

O incentivo à vacinação de crianças pequenas ganhou mais um argumento após a publicação de um estudo feito com milhares de crianças na Dinamarca. A pesquisa da Universidade de Copenhagen destacou que crianças muito pequenas e até mesmo bebês podem desenvolver sequelas pós-Covid. Publicado na revista científica Child & Adolescent Health, da The Lancet, o estudo monitorou 44 mil crianças e adolescentes de zero a 14 anos, sendo que 11 mil que contraíram a doença e 33 mil eram controles, entre 20 de julho e 15 de setembro de 2021. 

Segundo a pesquisa, 40% das crianças com menos de 3 anos continuaram a sofrer com sintomas dois meses após terem sido infectadas. Para bebês e crianças pequenas, os sintomas persistentes mais comuns após a Covid foram alterações de humor, erupções cutâneas e problemas estomacais.

Sem vacina e atendimento médico: maior risco de morte

No fim de julho, uma outra pesquisa da Fiocruz apontou que, entre 2020 e 2021, a Covid-19 matou três vezes mais crianças de 6 meses a 3 anos do que outras 14 doenças em uma década. Nestes dois anos, a Covid-19 matou ao menos 539 crianças desta faixa etária, enquanto 144 morreram entre 2012 e 2021 em decorrência de doenças como tuberculose, sarampo e meningite, entre outras, todas preveníveis com vacinas.  “Estes são mais alguns dos fatores favoráveis à vacinação de crianças em todas as idades”, ressalta Renato.

Diagnóstico difícil pode subnotificar casos

Apesar da ciência já ter descoberto que as crianças podem desenvolver a Covid longa, fazer o diagnóstico ainda é um desafio: nem sempre a criança consegue verbalizar o que sente e os sintomas podem ser confundidos com outros problemas de saúde. Com isso, há possibilidade de haver uma subnotificação de casos de Covid longa em crianças, afirma Fernanda.

“O que se sabe é que não procede mais a justificativa de que a Covid não se agrava em crianças e por isso elas não precisam ser vacinadas, principalmente porque é mais difícil diagnosticar a Covid longa em crianças, o que pode significar que os casos estejam sendo subnotificados”, conclui a médica. 

Outro fator ligado à taxa de mortalidade infantil por Covid no país é a falta de acesso à saúde, especialmente em relação às crianças não vacinadas que correm mais risco de ter agravamento da Covid-19, afirma Renato. Segundo o pediatra, a dificuldade de acesso ao atendimento médico pode ter relação com a mortalidade por Covid entre os menores de 5 anos no Brasil, segundo os dados do Observa Infância.

“O acesso ao serviço de saúde é o grande divisor de águas. Crianças sem esse acesso morrem mais do que qualquer indicador. Tem gente que fala que na Finlândia não vacinaram as crianças, mas lá morrem três crianças por ano, enquanto no Brasil foi mais de mil. A causa deste problema tem relação direta com a assistência ou mais exatamente com a falta de assistência”, conclui Renato. 

 

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